Artista: Eduardo Marinho

postado em: ARTE, ARTISTA | 2

A primeira vez que o vi foi impactante. Era outubro de 2011. Os movimentos occupy estouravam em diversos países, e aqui em São Paulo o acampa sampa me fez conhecer muita gente interessada em transformar. Foi assim que apareceu um vídeo dele na timeline de uma mídia social.

Um cara sem camisa está colocando uns papéis numa parede em espaço público, enquanto conversa com alguém que o está filmando. Que discurso. Que honestidade. Que eloquência. Que firmeza de idéias. Identificação 100%.
Mas quem é esse? Esse foi o meu primeiro contato com, depois eu fui saber melhor, o artista de rua Eduardo Marinho.

Há vários aspectos dos quais poderíamos falar sobre ele, mas aqui vou fazer uma reflexão sobre a Arte do Eduardo Marinho, e claro, o que ela acolhe.

“Eu acho que Arte é função. Artista de decoração pra mim, é um artista falho, um artista fútil, vazio (…) O cara tem sensibilidade e não olha pro mundo em volta. Ele não se solidariza com o sofrimento da maioria. Ele quer fazer parte da elite (…) Eu nunca gostei muito de artistas, sabe? São muitos vaidosos, ego. Hoje eu chamo de artista pavão. Hoje eu conheço artista engajado, mas é raridade.(…) Os valores são absurdos, as crenças são absurdas, os papos são horrorosos, fúteis, superficiais (…) “

Porém, antes de falar sobre o trabalho de Eduardo, gostaria que você me acompanhasse a fazer uma reflexão sobre a história da arte e nosso contexto contemporâneo.

A arte ao longo de sua história já teve diversas funções: registrar, ensinar, doutrinar, favorecer movimentos, ostentar, oferecer novas perspectivas, romper paradigmas, chocar, denunciar… Seja qual for a função, influenciou e foi influenciada por seus contextos. Mesmo quando a arte exige seu direito de não ter uma função, ela teve uma função: a de se libertar de tudo que já foi.

Vivemos um período complexo, existem muitos aspectos contemporâneos que poderíamos observar: econômico, político, mas estes não precisamos apontar, pois vivenciamos o seu caos diário. Podemos sintetizar o impacto indivíduo-social com alguns dados alarmantes: o consumo de remédios psiquiátricos para crianças aumentou 75% (ANVISA) entre crianças e adolescentes de 06 a 16 anos de 2009 a 2011, a mortes por depressão crescem 705%  em 16 anos (DATASUS) com uma média de 28 mortes por dia, entre suicídios e doenças associadas. São Paulo tem maior índice de perturbações mentais do mundo com 29,6% (OMS). A ansiedade, mudanças comportamentais e abuso de substâncias químicas com casos graves representam 10%. Somos considerados como uma geração triste: o excesso de estímulos motivados pelo consumo e mídia, leva à perda de habilidades sócio-emocionais como empatia, o pensar antes de agir, a imposição de idéias, intolerância e superficialidade.

Ao refletir sobre o que foi afirmado anteriormente, que o contexto influencia a arte e a arte influencia no contexto, o que a arte produzida hoje nos revela sobre nós mesmos? A arte pós moderna relativizou o belo e consagrou a arte conceitual, tornando desnecessário seu aspecto visual, deixando uma lacuna que foi preenchida pelas imagens dominadas pela propaganda, concentrando pessoas que mais tem conhecimento sobre o poder da imagem ao detrimento da estética superficial e descartável que visa criar necessidades. A própria definição de imagem, segundo a autora Martine Joly, em seu livro “Introdução a análise da imagem”, confunde-se com mídia e publicidade. O lúdico foi abandonado aos filmes de Hollywood e às séries do Netflix. No Brasil, o monopólio dos meios de comunicação também é motivado pelo ibope, onde as notícias se resumem a imagens de tragédias, e as novelas, com seus personagens e tramas hiperealistas favorecem à apatia do cansaço e impotência. Mesmo a mídia mais democrática, a internet, também manipulável, segue as tendências e repetem discursos compartilhando temas gerados pela grande mídia e suas contrapartidas distorções mal intencionadas. Tudo gira em torno do capital e da sua manutenção.

Obviamente nem tudo é negativo e existem exceções e relativizações que não cabem num post de blog. Muita gente tem trabalhado na restauração e na construção de valores, a partir da própria desconstrução de si mesmo. Tem muita gente boa no mundo, diria até que a grande maioria. Mas nosso meio como é agora não propicia o diálogo, nos desintegra e nos deixa carente de valores, não é por acaso que se recorre a polaridades e soluções conservadoras. Fica claro a necessidade urgente de transformações reais.

Eduardo Marinho: Arte que (se)importa

Na parte visual, Eduardo Marinho trabalha com serigrafia com nanquim e aquarelas, pastel e óleo sobre tela. A temática são personagens e pensadores importantes da história, pessoas e seus papéis e lugares sociais, cenários do Rio e outros lugares do Brasil.

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Muitos de seus trabalhos não são apenas figurativos, alguns dão destaques a pensamentos, onde as palavras em evidência são envolvidas por ícones e representações simbólicas.

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A palavra tem destaque no trabalho e na vida de Eduardo Marinho. Há algo nelas. Quando Eduardo fala, ou quando escreve em seu blog Observar e Absorver, entramos num fluxo de pensamento, reflexão, conexão de idéias e vivências. Não é só coerência e eloquência. É ressonância. É empatia. Tem algo de muito genuíno e forte ao mesmo tempo.

A grandeza do trabalho de Eduardo Marinho é seu trabalho como uma extensão de si mesmo, sendo sua vida sua maior obra prima, rica em valores e convites a reflexões. Quantos dos que se dizem artistas no mundo contemporâneo tem a sensibilidade de olhar à sua volta, tendo empatia para compreender o que acontece e ainda o discernimento de perceber que essas são consequências de uma sociedade que vive um engano, tendo a coragem de denuncia-los, mas não dentro de museus ou galerias, e sim nas ruas, sem a menor pretensão de aquirir um status artístico?

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Eduardo permitiu-se prestar atenção ao que acontece à sua volta, vivenciando, aprendendo, mergulhado em experiências que estão presentes nas entranhas dos seus trabalhos. Em um cenário onde a arte virou commoditie ou um recurso para lavagem de dinheiro, e ainda que, apesar da ousadia da autocrítica, se rende a ela e à seu preço, salvo raras exceções ou movimentos específicos como o artivismo. A arte de Eduardo, ou melhor, sua atitude perante sua arte, é seu maior legado. Ocupar um espaço público para expor seus trabalhos é uma apropriação do espaço público, um convite para o uso do espaço para o diálogo acessível.
Enquanto muitos artistas se ocupam em questionar “Por que a arte deve ter uma função?”, ou negar-se sem nem sequer se quetionar, outros, ainda bem, vêem a arte como ferramenta de transformação efetiva. Esta é de fato, dentre todas as áreas do conhecimento humano, onde se conquistou liberdade para ser o que quiser apesar das tendências mercadológicas. Existe uma necessidade e desmonetizar a arte, deselitizar o artista, desacademizar discursos, cultivar com firmeza valores que queremos. Se todas as nossas escolhas são atos políticos, podemos então produzir uma arte que se importa. Podemos, queremos, precisamos, de artistas que se importem. Conhecimento, sensibilidade, criatividade, de nada nos valem se não estiverem ajudando, empurrando, puxando, desbravando caminhos para transformar realidades.

Se quiser saber mais sobre o trabalho de Eduardo Marinho, acesse seu blog: Observar e Absorver. Além disso, tem muitos outros vídeos no youtube e um documentário.

2 Respostas

  1. Tá lindo, Thaisa. Quero só deixar anotado que de 2009 (ano em que foi feito esse primeiro vídeo) pra cá, lapidei um pouco mais minha idéia, desarrogantizando um pouco minha opinião a respeito dos artistas das belezas e dos conceitos. Eu uso a arte pra dizer o que penso, como um veículo de comunicação. Mas não posso cobrar a mesma atitude de ninguém, é preciso respeitar escolhas. Grande abraço.

    • Respeitar sempre, com certeza Eduardo!
      O Objetivo aqui foi muito mais refletir sobre dar importância à arte como função, como ferramenta de transformação. A beleza também é transformadora, vivemos tempos onde ela foi colocada de lado ou substituída pela superficial beleza das propagandas… To pra escrever sobre isso também 😉
      Adorei sua visita e recado! Grande abraço!

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