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“Os Senhores da Criação” é um projeto artístico colaborativo. Surge a partir da reflexão sobre indústria cultural, consumo e propriedade. Cada livro tem uma única edição, que sugere driblar o pó das prateleiras e circular entre pessoas queridas. Algumas páginas estão escritas e outras estão em branco, para que os leitores-autores escrevam e façam parte da história.

 

1ª edição: Carta ao Leitor

Mais do que uma obra literária, este é um projeto artístico, social, uma linha no horizonte, um sonho palpável, singular e artesanal. Foi criado para ser único e para todos, para circular entre mãos de pessoas queridas, para ser e estar presente, e quem sabe um dia, como mágica, voltar para as minhas. Este não é um livro para ser guardado, mesmo que com carinho. Desde sua concepção foi pensado para que circulasse.

As palavras não foram em vão, todas elas foram escolhidas e demoraram muito tempo para que viessem. Fico aqui na torcida para que você visite comigo os lugares que estive, e estaremos então, conectados, você e eu, por esta viagem que faremos.

Peço a você amigo leitor, que assim que terminar de ler este livro, deixe uma pequena mensagem nas páginas finais, para os próximos leitores. Faça parte da mensagem, faça parte do livro, faça parte da criação, e tenha consciência da responsabilidade que lhe proponho. O que você diria às pessoas? O que você diria a elas, para que suas vidas fossem mais bonitas? Escolha suas palavras, pense nelas como sementes que você pode plantar nas pessoas. O que você gostaria de ver brotar em todo mundo? Deixe seu coração ditar. Assim como na vida, você é livre para ser abstrato, é livre para plantar. Aproveite todas as oportunidades!

Fraterno Abraço.


Primeiro Momento – O nascimento do Ser e da Arte

No amanhecer dos seres, deu-se a consciência de si, e posteriormente o reconhecimento de que havia um outro.

E que haviam muitos outros. No experimento de entrar em contato com estes outros, começaram a enxergar-se como espelhos. Quando observando a si mesmos no reflexo, logo percebem que estavam dentro e fora do outro, que estavam em tudo, e que podiam sentir o outro como a si mesmos, assim podendo experienciar a vida sob todos os infinitos pontos de vista através uns dos outros. Muito poderia ser construído quando se viram muitos, poderosos, em um. Na alegria e conexão deste momento de profunda consciência, onde as palavras para expressar não eram mais necessárias, espiralou-se uma energia, que inundou como uma onda a todos os seres.

Era sua primeira criação. Gerada pela alegria, pela imaginação criativa da prosperidade e da beleza de tudo que viria a ser, a Arte foi concebida. Herda dos seres todas as suas capacidades potencializadas: a sensibilidade e a sensitividade, a consciência de si, a responsabilidade com o todo, a beleza em todas as suas possibilidades e a capacidade de aprender. A vida, que agora era olhada de dentro e de fora, participa da concepção, dando à Arte também o poder da intuição, para que assim pudesse escutar-lhe.

O plano, plástico e moldável, proporcionaria à Arte um ateliê eterno para suas criações, que com autonomia se desdobrariam com vida própria em harmonia à vibração da cidade.

Todos estavam deleitados com sua primeira criação, que era a própria Inspiração. A Arte, grata por sua concepção, os presenteava com maravilhosos vislumbres inspiradores. Ela os alimentava, e eles a alimentavam de volta, com sua gratidão e seus impulsos criativos. Toda vez que isso acontecia, ela brilhava como uma estrela, e eles brilhavam de volta pois eram também parte dela. Eles a geraram, e ela os gerava todos os dias, numa contribuição infinita.

Haviam dias e noites, mas os momentos eram eternos, ecoavam e desdobravam-se no passado e no futuro, tal qual fossem requeridos por quem procurasse o equilíbrio neles.

Desabrochavam seus dons como uma flor quando raiava o dia. Muitas vezes o nascer do sol, não criado por ela, mas pela própria Vida, era silencioso e meditativo. Mas era ela, a Arte na forma de Poesia, que os convidaria à contemplação, e os faria recordar da importância de estarem ali conectados. Os Seres, a Vida e o Infinito sentiriam, cada um à sua maneira, a mesma Poesia, a mesma Beleza, e compartilhariam entre si todas as experiências. Era um momento de êxtase, pois todos poderiam sentir a Beleza desdobrando-se infinitamente e eternamente.

Alguns dias, de acordo com as vibrações da cidade e dos Seres, a Arte harmonizaria com o amanhecer algumas notas musicais, ora piano, ora flautas doces, ora harpas ou o tilintar de metais. E assim era com todas as outras formas artísticas. Podia-se ver, ouvir ou sentir, de onde quer que estivesse, a mensagem que vinha trazer. Podia ser comum a todos, ao mesmo tempo em que era direcionada a cada um. No momento em que chegasse, poderia deixar flores ou pinturas nas paredes das moradas, mandar aves que deixassem um arco íris, ou uma chuva de pétalas de cores… Uma infinidade de intervenções, assim como é a singularidade de ser. Era a própria alma de todos os artistas reunidos, que a Arte organizava e harmonizava de acordo com sua sensibilidade, sensitividade e intuição.


Femina

Era fim de tarde e o sol se punha, colorindo o céu com um degradê que ia do roxo, rosa, azul ao verde água. O silêncio eternizou o tempo.

Ao perceberem a presença da Arte, pararam para senti-la. Ouviu-se ao longe assovios e ruídos como os do fundo do mar. Ecoavam.

Correram todos para as janelas, e puderam ver. Baleias e golfinhos vinham do céu, assoviando seus cantos atravessavam as nuvens e mergulhavam na cidade.

A Essência chamou-as para o centro. De onde estivessem, elas saíam. Se reuníram em círculo no centro da cidade. Ficaram assim, um tempo, ouvindo, sentindo. Como um amplificador, todos sentiam com elas.

Um som começou a construir-se em seus corações, e todos podiam ouvir aquele canto. Era suave, doce, longe.

Um golfinho rosa e pequeno delicadamente se aproxima e joga no centro da roda, um grão de areia, que flutua.

Os seres, que podiam senti-las e ouvi-las, brincavam também com os seres marinhos que os rodeavam, flutando com eles.

Elas deram as mãos. Colocaram-nas pra cima. E o grão de areia brilhou uma luz branca como uma estrela, iluminando toda a cidade, como um choque, como um infinito momento eterno. Logo tornou-se rosa e suave.

Elas, ainda de mãos dadas, podiam sentir umas às outras. Circulavam suas energias entre si. E estavam conectadas àquela estrela. Balançavam para os lados no ritmo da energia que as envolvia. O canto silenciou. Os seres se despediram. Elas abriram os olhos. A mensagem havia sido entregue.

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